Minha casa tem jardim. Ele está entre o portão da casa e a janela do meu quarto. Por isso, agora mesmo estou olhando para ele. Eu gosto de olhar para o jardim e para a rua, e como moro aqui há mais de dez anos, já vi bastante coisa nesse pedacinho do mundo. Brigas na rua, beija-flores, Milu mordendo dedo dos outros, um pássaro preto, grande e misterioso, abelhas assassinas, borboletas, lagartas, flores, gatos, pardais, sabiás, casulos, taturanas.

De todas as coisas, uma única ficou sem explicação. E nem foi o pássaro preto.

Há alguns anos, eu vi um bicho. Depois alguns iguais, menores, maiores, como uma família, nas folhas. Eles deviam ter mais ou menos 2 centímetros por 1,5. Vermelhos, aparentemente peludos, mas peludinhos como uma taturana dessas que a gente sabe que se tocar cai a mão e depois de um mês, o braço. Mas a coisa mais estranha era a forma deles. O bicho todo era uma coisa simétrica de seis “bracinhos”, três pra cada lado, bem arredondados. Agora eu não me lembro se nesses bracinhos ficavam os pezinhos ou se os bracinhos eram só o design moderno da coisa e ele andava com pezinhos tipo um tatu-bola fantasiado de bracinhos vermelhos e peludinhos. Acho que a segunda opção é a verdadeira. Não que eles fossem tatus fantasiados.

Mas eles eram tão únicos e maravilhosos que pela primeira vez na vida eu capturei insetos. Coloquei todos num pote furadinho e com comida e pelos dias eu admirei os meus bichos vermelhos sem descobrir se achava aquilo lindo ou nojento. Eu chegava da escola e a primeira coisa era ver “os meus bichos”. E eles estavam lá, caminhando pra lá e pra cá calmamente, mexendo todos os bracinhos numa harmonia perfeita.

Não tinha mais nenhum no jardim. Os meus foram desbotando, foram ficando mais para o laranja que para o vermelho. Eu sabia que tinha algo errado, mas ao mesmo tempo que não queria abrir mão dos meus bichos, eu não queria devolvê-los ao jardim e deixar que se reproduzissem em larga escala. Eu tinha medo deles, mas adorava.

Um dia eles morreram. Claro. Depois disso, sempre que eu olho para o jardim, por qualquer razão que seja, no fundo eu sempre procuro meus bichos vermelhos. Nunca mais vi igual nem parecido.

Eu sinto muito pelo que eu fiz com eles, mas acho que salvei a humanidade de alguma coisa. Alguma coisa que foi colocada discretamente num aparentemente discreto e seguro jardim aleatório até que se acostumasse com a nossa atmosfera, mas antes, eu os tirei de circulação e a missão falhou.

De verdade, não faço idéia do que eram os meus bichos. A parte mais incrível, depois deles mesmos, é que ninguém aqui em casa se lembra disso.

2 Responses to “Meus bichos vermelhos”
  1. Calebe says:

  2. Morgana says:

    UHAUHAUAHAUHH
    Você escreveu de um jeito tão engraçado que eu não pude deixar de rir um pouco aqui. Vai ver eram mini alienígenas, só estavam esperando o tempo certo para virarem super-gigantes(?), mas como você disse, FAIL pra eles.
    Sério agora.
    No início da sua descrição eu pensei em tanajuras, mas depois da parte dos “peludos” não faço a mínima idéia. .-.

  3.  
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