Lá pelas quatro da tarde, estava de carro na segunda pista de uma avenida dessas largas. Só eu. Na minha frente, meio longe, uma mulher feia, não dessas desarrumadas, dessas arrumadas de jeito feio, ajudava um senhor muito idosinho e debilitado a atravessar. No meu farol verde, fora da faixa e na velocidade daquele senhor. Honestamente, isso não me incomodou nem um pouco. No meu tempo, freei e quase parei a uns quinze metros dos dois. Ainda olhei pelo retrovisor para me certificar de que nenhum carro vinha na direção deles e estava tudo bem, assim como eu não estava atrapalhando ninguém.

A mal arrumada se deu ao trabalho de soltar o braço do senhorzinho para me mostrar o dedo enquanto me xingava de alguma coisa no meio de uma careta horrenda naquela cara feia.

O que eu fiz pra merecer isso?

Eu estava ali? Eu não parei meu carro quinhentos metros antes e corri pra ajudar? Eu não ofereci carona até o outro lado da rua? Sério, o que eu fiz?

É simples. Na cabecinha daquela feia, ela estava sendo tão incrivelmente nobre que poderia tranqüilamente rebaixar e pisar em qualquer um, ninguém chega aos pés dela. (Muito menos uma linda garota atrás de um volante de um carro em um dia útil e em pleno horário comercial.)

Mas isso não acontece com quem é bom. Quem é bom faz a sua bondade calado. A feia provavelmente é paga ou é parente do pobre senhor, e no sacrifício que ela acha que faz, vê o seu pedaço de céu garantido e ninguém tem o direito de atrapalhar, se é que alguém atrapalha de fato. Mas ela quer ser vista. Pra que ela possa inventar que eu atrapalhei, pra que ela possa me xingar e pra que ela possa acreditar que eu me senti mal de atrapalhar uma boa alma bem no meio da sua prática de bondade.

E eu me senti muito mal. Não por ter vindo correndo e buzinando naquela região de hospitais nem por ter ameaçado a vida daquele homem e daquela mulher feia e nem por ter rido da cara de susto deles. Eu não fiz nada errado. Eu só estava, naquele momento, não exercendo a bondade que ela exercia. Eu só parei o mais longe que eu consegui pra que eles tivessem a certeza de poder passar. E eu me senti mal por alguém ter a simples certeza de ser melhor que eu e eu sei que tem a certeza de ser sempre melhor que todo mundo.

É esse o mal do mundo. Eu me senti mal porque ela existe. Eu me sinto mal o tempo todo porque essas pessoas são uma ridícula maioria e estão em todos os lugares, todas sobre um pedestal feito por elas mesmas, todas na certeza de que o que quer que estejam fazendo, ou simplesmente fazendo nada, são melhores que todas as outras. Não num sentido de auto confiança e estima. Mas de um jeito podre, como se todo o resto fosse lixo perto delas. A sua existência em si já vale mais que a dos outros. É isso que significa ser humano.

É por isso que eu me senti mal. Até perdi o rumo da bela canção que eu estava cantando. E fiquei triste, me perguntando o que eu tinha feito afinal.

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